O fortalecimento de iniciativas territoriais voltadas à sustentabilidade em Mato Grosso tem sido impulsionado pela atuação do Instituto PCI (Produzir, Conservar e Incluir), criado pelo governo estadual em 2015 durante a COP21, quando Mato Grosso assumiu compromissos voluntários de redução do desmatamento, aumento da produção sustentável e inclusão de pequenos produtores. Desde então, o modelo tem sido reconhecido como uma das principais referências de abordagem integrada no país.
Entre setembro de 2024 e abril de 2026, o instituto estruturou um portfólio de R$ 12,5 milhões em contratos firmados com 10 organizações financiadoras, abrangendo projetos que integram produção agropecuária, conservação ambiental e inclusão social.
A carteira de investimentos reúne recursos de organizações privadas, fundações, cooperação internacional e instituições públicas, consolidando uma estratégia multissetorial alinhada à agenda de desenvolvimento sustentável do estado.
Financiadores privados e fundações impulsionam inovação territorial
Entre os principais parceiros do Instituto PCI, a The Nature Conservancy (TNC) atua em duas frentes estratégicas. Além do fortalecimento institucional do iPCI e do Pacto PCI de Barra do Garças, a organização contribui para o avanço de ferramentas de inteligência territorial, como o painel de monitoramento de metas da estratégia PCI.
O primeiro tem como foco o fortalecimento institucional do iPCI e do Pacto PCI de Barra do Garças, com ações que incluem diagnóstico da cadeia produtiva do leite, engajamento de produtores em boas práticas agropecuárias — em parceria com o SEBRAE — e desenvolvimento de um painel de monitoramento das metas da estratégia PCI.
O segundo contrato com a TNC está direcionado ao desenvolvimento do Programa de Rastreabilidade Bovina. A iniciativa é conduzida em parceria com o IMAC e envolve a implementação do sistema Passaporte Verde. O projeto já entregou uma versão piloto da plataforma, com módulos de cadeia de custódia, rastreamento logístico e leitura por radiofrequência (RFID – Radio Frequency Identification), tecnologia utilizada para identificação automática de produtos e animais. A iniciativa responde a uma demanda crescente de mercados internacionais por cadeias livres de desmatamento.
Esse tipo de solução está alinhado às tendências globais de uso de dados para gestão ambiental. Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), sistemas digitais de monitoramento são essenciais para aumentar a transparência e a rastreabilidade das cadeias agropecuárias (FAO, 2022).
Outras inovações e conquistas
A União Europeia, por exemplo, aprovou em 2023 uma regulamentação que restringe a importação de produtos associados ao desmatamento, incluindo carne bovina e soja. Esse movimento reforça a importância de sistemas robustos de rastreabilidade, como o que vem sendo estruturado no estado.
Já a McDonald’s Corporation financia o projeto “Paisagens Sustentáveis em Mato Grosso”, com foco em resiliência hídrica e agricultura livre de desmatamento (Deforestation and Conversion Free – DCF). A iniciativa dialoga diretamente com compromissos globais assumidos pelo setor privado.
De acordo com o Consumer Goods Forum, mais de 200 empresas internacionais já assumiram metas para eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos até 2030 (CGF, 2023). Nesse contexto, projetos como o apoiado pelo McDonald’s contribuem para preparar produtores locais para atender a esses requisitos.
A parceria com a Fundação Walmart e o Earth Innovation Institute (EII) reforça a inserção de Mato Grosso nos mercados de carbono. O desenvolvimento do REDD+ jurisdicional (Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation) integra o estado a iniciativas globais de financiamento climático.
Segundo a UNEP (United Nations Environment Programme), o mercado voluntário de carbono movimentou mais de US$ 2 bilhões em 2022, com expectativa de crescimento acelerado até 2030 (UNEP, 2023).
As atividades incluem apoio estratégico à SEMA MT para acelerar a validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a regularização ambiental em bacias hidrográficas prioritárias. O projeto também contempla certificação RTRS (Round Table on Responsible Soy – Mesa Redonda da Soja Responsável), fomento por meio de linhas de financiamento e planejamento de restauração de 50 hectares, além da consolidação do sistema de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) em Tangará da Serra.
Projetos integram produção agrícola, inclusão social e conservação
No setor produtivo, a Amaggi financia o projeto “Regenerando a Paisagem do Oeste”, que atua em diferentes frentes da agricultura.
A iniciativa contempla capacitações com agricultores familiares em temas como meliponicultura (criação de abelhas nativas sem ferrão) em Diamantino, pecuária sustentável em Alto Paraguai e fruticultura em Tangará da Serra. As ações são desenvolvidas em parceria com o IPAM.
O projeto também inclui a formação de um grupo de trabalho voltado à agricultura regenerativa e, no segmento de grãos, atividades conduzidas com as organizações Produzindo Certo e Proforest. Entre as ações estão análises de solo para mensuração de estoque de carbono e certificação de fazendas dentro do programa Amaggi Regenera.
O IPAM também lidera o Projeto de Regularização Ambiental no Pacto Oeste, que alcançou 100% da meta ao finalizar 70 Cadastros Ambientais Rurais. Desses, 38 já foram migrados e aprovados no sistema da SEMA/MT, enquanto outros 29 estão com status ativo e aptos para análise digital.
O projeto inclui ainda 47 atendimentos realizados no Assentamento Bezerro Vermelho, ampliando o acesso de produtores à regularização ambiental — etapa considerada estratégica para a adesão a políticas públicas e mercados sustentáveis. Dados do IBGE indicam que políticas públicas com monitoramento contínuo e indicadores claros apresentam maior taxa de implementação efetiva (IBGE, 2022).
Complementando as ações no território, a Proforest atua no projeto “Downscaling Mato Grosso’s PCI Strategy”, com foco na governança territorial do Oeste do estado. As atividades incluem mapeamento de produtores para inserção em programas de Pagamento por Serviços Ambientais e apoio ao sistema de monitoramento socioambiental baseado em MRV.
Além dessas organizações, outros financiadores privados também contribuem para a estratégia, como o consórcio CGF FPC (Consumer Goods Forum – Forest Positive Coalition, que inclui empresas como Nestlé e Sainsbury’s) e a Famato.
Cooperação pública e internacional garante estrutura e escala
No campo da cooperação institucional, o IDH (Sustainable Trade Initiative) atua no fortalecimento institucional do Instituto PCI, assegurando a manutenção da estrutura administrativa e operacional.
Já a SEMA MT, em conjunto com o MPMT, participa do Programa Todos Pelo Araguaia. A iniciativa envolve apoio técnico-institucional, ações de restauração ambiental e a gestão do Escritório Executivo de Projetos na bacia do Alto Araguaia.
Outro destaque é o Programa REM Mato Grosso (REDD Early Movers – REDD para Pioneiros), implementado por meio da FAS. O programa apoia a estruturação do Instituto PCI, incluindo a contratação de equipes técnicas, assessoria jurídica, comunicação institucional e secretários executivos dos pactos regionais.
De acordo com o Banco Mundial, iniciativas que integram governança, financiamento e monitoramento tendem a apresentar maior eficiência na implementação de políticas ambientais. Esse modelo é refletido na atuação do Instituto PCI, que articula diferentes atores em torno de metas comuns.
Estratégia integrada fortalece governança e sustentabilidade
A consolidação de um portfólio diversificado de financiadores e projetos posiciona o Instituto PCI como um articulador estratégico na implementação de políticas territoriais em Mato Grosso.
A integração entre produção agropecuária sustentável, conservação ambiental e inclusão social está no centro das ações desenvolvidas, com foco na geração de resultados mensuráveis e alinhados a compromissos climáticos e de mercado.
Segundo a FAO (Food and Agriculture Organization), iniciativas que promovem práticas agrícolas sustentáveis e conservação ambiental são fundamentais para garantir segurança alimentar e resiliência climática (FAO, 2021).
Nesse contexto, o Instituto PCI avança na consolidação de uma governança territorial baseada em dados, monitoramento contínuo e articulação multissetorial, ampliando a capacidade do estado de Mato Grosso de responder aos desafios ambientais e produtivos de forma integrada.
Foto de no one cares na Unsplash.