Agricultura Regenerativa ganha força em Mato Grosso com articulação entre pesquisa, produtores e instituições parceiras

Como produzir mais alimentos e, ao mesmo tempo, regenerar os recursos naturais? Essa é uma das principais perguntas que tem mobilizado pesquisadores, produtores rurais, empresas e organizações ligadas ao setor agropecuário nos últimos anos. 

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 33% dos solos do planeta apresentam algum grau de degradação, fator que compromete a produtividade agrícola e a segurança alimentar. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de fortalecer os sistemas produtivos, com práticas que ampliem sua capacidade de adaptação e sustentabilidade no longo prazo. 

Nesse contexto, a agricultura regenerativa tem ganhado destaque como uma abordagem capaz de conciliar produção e conservação. Mais do que um conjunto de práticas, ela busca fortalecer a saúde do solo, recuperar processos ecológicos, ampliar a biodiversidade e promover sistemas produtivos mais resilientes, eficientes e sustentáveis. A abordagem também envolve o desenvolvimento de sistemas integrados de produção, o uso eficiente dos recursos naturais, a valorização do conhecimento local e a geração de evidências que apoiem a transição para modelos agrícolas de longo prazo. 

Em Mato Grosso, estado que lidera a produção nacional de grãos e possui papel estratégico na segurança alimentar global,essa agenda vem ganhando força a partir da articulação entre instituições de pesquisa, setor produtivo e organizações parceiras que trabalham de forma integrada para gerar conhecimento, testar soluções e promover sua aplicação em diferentes escalas produtivas. 

O avanço dessa agenda no estado reflete o entendimento crescente de que produtividade, conservação ambiental e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos, desde que apoiados por conhecimento técnico, inovação e colaboração entre os diferentes atores do território.

 

Fotos 1 e 2- Agricultura Regenerativa em sistemas de produção de grãos, ação no âmbito de projetos executados na região Oeste de Mato Grosso pelo Consórcio Oeste de MT.

Fotos 3 e 4- Agricultura Regenerativa em sistemas familiares de produção com SAFs, ação no âmbito de projetos executados na região Oeste de Mato Grosso pelo Consórcio Oeste de MT.

Grupo de Trabalho fortalece construção coletiva da agenda regenerativa

A construção dessa agenda em Mato Grosso tem sido conduzida por meio do Grupo de Trabalho de Agricultura Regenerativa (GT Ag Reg), criado no âmbito do projeto Regenerando a Paisagem Oeste de Mato Grosso.

A iniciativa tem sido executada sob a liderança do Instituto PCI no âmbito do Consórcio Oeste de Mato Grosso, formado pelo Instituto PCI, IPAM, Produzindo Certo e Proforest. Com financiamento da  AMAGGI e Fundação AMAGGI. Alinhado à visão da Estratégia Produzir, Conservar e Incluir (PCI), o projeto busca promover sistemas produtivos mais sustentáveis, conciliando produção agropecuária, conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico.

Foto 5 e 6 – Reuniões do GT de Especialistas em Agricultura Regenerativa.

Especialistas e instituições atuam de forma integrada

Desde sua criação, o GT Ag Reg tem reunido especialistas, pesquisadores, empresas, universidades e organizações que atuam direta ou indiretamente na temática da agricultura regenerativa.

Atualmente, o grupo é composto por 20 instituições e 49 especialistas de diferentes áreas do conhecimento e setores de atuação. Ao longo de 2026, reuniões mensais vêm sendo realizadas para promover debates técnicos, alinhamentos conceituais e construção de uma visão compartilhada sobre agricultura regenerativa em Mato Grosso.

A iniciativa busca fortalecer o diálogo entre diferentes segmentos do setor agropecuário, contribuindo para a consolidação de conceitos e para a identificação de oportunidades de atuação conjunta.

Mapeamento identifica iniciativas em andamento no estado

Um dos resultados do trabalho desenvolvido pelo GT foi a realização de um levantamento das ações relacionadas à agricultura regenerativa conduzidas pelas instituições participantes.

O mapeamento identificou 22 iniciativas em desenvolvimento no estado. Essas experiências vêm sendo gradativamente apresentadas e aprofundadas durante as reuniões do grupo, permitindo o compartilhamento de metodologias, resultados e aprendizados.

Além de ampliar o conhecimento sobre as ações já existentes, a iniciativa tem contribuído para a criação de conexões, parcerias e sinergias entre projetos que atuam em diferentes regiões de Mato Grosso.

Workshops ampliam acesso ao conhecimento sobre agricultura regenerativa

A troca de experiências e a disseminação de conhecimento técnico também fazem parte da estratégia adotada pelo Consórcio Oeste para fortalecer a agricultura regenerativa. Com apoio da AMAGGI, estão sendo promovidos workshops virtuais gratuitos voltados para produtores rurais, estudantes e profissionais do setor.

Primeiro workshop sobre produção familiar

O primeiro encontro será realizado no dia 17 de junho, das 9h às 11h, horário de Cuiabá. Voltado para produtores familiares, estudantes e profissionais da área, o evento abordará temas relacionados à saúde do solo, carbono, biodiversidade, regeneração da paisagem, sistemas produtivos integrados e mecanismos de financiamento para práticas sustentáveis.

O workshop contará com a participação da doutora Rafaella Felipe, pesquisadora do Projeto GAIA, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e do doutor Edicarlos Damacena de Souza, da Aliança SIPA/UFR. A presença dos especialistas contribuirá para ampliar o debate sobre agricultura regenerativa, promovendo a disseminação de conhecimento técnico e o intercâmbio de experiências relacionadas às práticas sustentáveis no campo.

Foto 7 – Convite do Workshop Online (Sessão 1- Agricultura Regenerativa para produção familiar)

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Segundo workshop para produtores de grãos

No dia 8 de julho, de 9h às 11h, será realizado o segundo workshop da série, desta vez voltado para produtores de grãos, estudantes e profissionais do setor. Entre os participantes confirmados estão representantes da AMAGGI, SLC Agrícola, Scheffer, além do pesquisador Cornélio Zolin, da EMBRAPA, e o doutor Edicarlos Damacena de Souza (Aliança SIPA).

Assim como no primeiro encontro, os debates abordarão temas ligados à saúde do solo, carbono, biodiversidade, regeneração da paisagem, intensificação sustentável, pesquisa e desenvolvimento e mecanismos de financiamento, agora voltados para a produção de grãos.

Foto 8 – Convite do Workshop Online (Sessão 2 – Agricultura Regenerativa para produção grãos)

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As inscrições são gratuitas e os eventos serão realizados de forma virtual por meio da plataforma Zoom.

Pesquisas sobre carbono no solo avançam em propriedades de Mato Grosso

Outra frente estratégica da agenda de agricultura regenerativa está relacionada à geração de evidências científicas sobre os impactos dessas práticas nos sistemas produtivos. Nesse contexto, pesquisas conduzidas pela Produzindo Certo, integrante do Consórcio Oeste, avançaram com a conclusão de coletas de solo para análise de estoques de carbono e indicadores biológicos de propriedades localizadas em Sapezal e Campo Novo do Parecis. O trabalho de campo resultou na coleta de 552 amostras, analisando talhões sob diferentes sistemas, como algodão e pecuária em sistema agrossilvipastoril.

As pesquisas têm como objetivo compreender de que forma práticas regenerativas podem contribuir para o aumento do sequestro de carbono e para a melhoria da qualidade dos sistemas agrícolas. Entre os principais aspectos analisados estão:

  • Aumento dos estoques de carbono no solo;
  • Melhoria da fertilidade e da estrutura física do solo;
  • Incremento da capacidade de retenção de água;
  • Redução da vulnerabilidade às mudanças climáticas;
  • Produção de conhecimento científico para orientar futuras estratégias de manejo sustentável.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), o solo representa um dos maiores reservatórios terrestres de carbono, armazenando mais carbono do que a vegetação e a atmosfera combinadas. Por isso, práticas que favorecem sua conservação são consideradas fundamentais para as estratégias de mitigação das mudanças climáticas.

Figura 9. Coleta de solo em talhão cultivado com algodão.

Conhecimento aplicado para orientar decisões futuras

Além da geração de dados científicos, os estudos desenvolvidos em Mato Grosso têm potencial para apoiar decisões relacionadas a políticas públicas, programas de incentivo e mecanismos de financiamento voltados à agricultura de baixo carbono.

Os resultados também deverão contribuir para ampliar o entendimento sobre os benefícios ambientais e produtivos da agricultura regenerativa em condições reais de produção agrícola.

Mato Grosso tem papel estratégico na transição para sistemas mais sustentáveis

A relevância dessa agenda está diretamente relacionada à importância de Mato Grosso para a produção mundial de alimentos. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o estado permanece como o maior produtor de grãos do Brasil, liderando a produção nacional de soja, milho e algodão.

Ao mesmo tempo, cresce a demanda global por cadeias produtivas capazes de demonstrar compromissos concretos com sustentabilidade, redução de emissões, conservação ambiental e inclusão socioprodutiva.

Nesse cenário, iniciativas que aproximam pesquisa científica, produtores rurais e instituições parceiras tornam-se fundamentais para acelerar a adoção de práticas capazes de aumentar a produtividade sem ampliar a pressão sobre os recursos naturais.

Ciência, cooperação e inovação impulsionam o futuro da agricultura

Os avanços observados na agenda de agricultura regenerativa demonstram que Mato Grosso está construindo uma base sólida para o desenvolvimento de sistemas produtivos mais resilientes e preparados para os desafios futuros.

A atuação do Grupo de Trabalho, os workshops de capacitação e as pesquisas sobre carbono no solo representam três frentes complementares de uma mesma estratégia: gerar conhecimento, fortalecer a cooperação entre diferentes atores e ampliar a aplicação prática de soluções sustentáveis no campo.

À medida que novas evidências científicas são produzidas e compartilhadas, cresce também a capacidade do setor agropecuário de conciliar produtividade, competitividade e conservação ambiental. Um caminho que pode contribuir não apenas para o futuro da agricultura mato-grossense, mas também para a construção de sistemas alimentares mais sustentáveis em escala global.

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